O livrinho da Quarta série

Eu tinha entre 8 e 9 anos aproximadamente e na humilde casa de minha mãe não existia livros, com exceção de uns raros e parcos livros didáticos que iam boiando ao final dos anos letivos dos meus irmãos mais velhos. Nada que pudesse, de fato, saciar minha curiosidade, mas por ser o mundo em que vivia achava tudo aquilo fantástico e sem paralelos. Em especial um livrinho didático de ciências da quarta série que foi o primeiro a despertar em mim a curiosidade científica e o desejo de aprender. Estudava ainda a segunda série mas, graças aos esforços de minha mãe e de meus irmãos mais velhos eu já lia bem e tinha gosto pela leitura. Era este livrinho meu xodó, reli diversas vezes e ansiava por chegar, finalmente, à quarta série para que pudesse utilizá-lo, tão grande era o fascínio que o livrinho me proporcionava.

O livro era recheado de pequenas experiências com plantas, solo e algumas outras com ímãs e não sei mais o quê. Eu era louco de vontade de realizar aquelas experiências, mas sem auxílio meus esforços autônomos foram mal-logrados. Infelizmente. Aquele livro abria, para mim, as portas das descobertas, do fascinante mundo da autonomia, da prática e dos mistérios da natureza. Conheci nele a famosa experiência de Benjamin Franklin e sua pipa durante a tempestade. Nele descobri que a terra é um enorme ímã e que objetos imantados podem funcionar como bússolas rústicas.

Qual foi minha enorme decepção que nunca me recuperei: ao chegar à então quarta série (hoje quinto ano) não houve livro (qualquer que seja, muito menos o meu adorado livro de ciências), não houve experiência, não houve fascínio da descoberta, não houve nada. Só quadro negro, sala de aula e nada mais. O fim da curiosidade, o fim do desejo de descobrir, enquanto me adequava à maneira tradicional de ser estudante neste Brasil.

Uma resposta

  1. Somos uns verdadeiros sobreviventes de uma forma de ensinar que muito longe de dar asas, podava as capacidades das crianças. Agora, do outro lado, nos cabe lutar para mudar, dentro de nossas possibilidades o que for possível.

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