O Pesadelo

O sol estava a se pôr na tardinha sertaneja por trás do bloco onde fica o Hospital Regional de Currais Novos. Depois de um dia aflitivo eu esperava o carro para voltar para casa. Levava comigo um decreto que não podia revelar ao sentenciado e este detalhe fui capaz de cumprir. O dia mais temido da minha vida, até aquele momento, havia afinal chegado. Minha cabeça girava, o mundo parecia irreal, as cores não eram reais, parecia uma paleta desbotada. Eu vivia o pesadelo. E dele eu não acordei.

Sempre adorei o pôr-do-sol, mas aquele era simplesmente repulsivo com suas cores pálidas, com seus tons de tristeza e desespero. Minha cabeça girava e era só isso o que percebia. Visitei minha mãe mais uma vez para sair com o coração mais triturado que antes. Não é possível descrever a dor de acompanhar a própria mãe em situação angustiante e não ser capaz de fazer nada. Desde que minha mãe se internou eu não podia acompanhá-la, contratei uma acompanhante para dar atenção total a ela.

Sonhava acordado que minha mãe vinha caminhando por entre os corredores daquele hospital, via seu rosto em cada mulher que passava por mim, caminhando, rindo, falando. Estava enlouquecendo? Não sei, mas minha razão sabia que minha mãe não estava de fato ali, estava no quarto sofrendo. Não pudia contar para ela o que o médico me falou. Era melhor assim. Se não iria alterar o decreto, porque saber? Só iria provocar desespero e eu queria dar um mínimo de conforto possível a ela.

A ficha para mim ainda não caiu. Ainda não consegui conviver com a verdade – minha mãe se foi. Lutei muito e desesperadamente, importunei médicos e enfermeiros o quanto pude para ter alguma esperança tímida, me enganar, me iludir e ter direito a ficar com minha velhinha por mais alguns dias. Toda conversa que tinha com os profissionais era desestimuladora. Era tarde demais. Nada mais podia ser feito. Corri feito louco, deixei o trabalho, esperava trazer minha velhinha para casa. E toda essa loucura passava por minha cabeça como um grande e terrível pesadelo.

Deste pesadelo ainda não acordei. Por tudo o que sofri, que chorei, que corri, que gritei, os alvoroços no hospital para que minha mãe tivesse o direito ao menos de fazer um exame, as esperanças vãs e perdidas, encontrei-me no final disso tudo extenuado e com a cabeça fora do lugar. Queria muito que esse pesadelo acabasse e eu pudesse sair e ir visitar minha mãe em sua casa e que tudo não tivesse passado de um sonho ruim. Suspeito que este pesadelo não tem fim.

2 Respostas

  1. Gilberd, meu amigo!!
    Infelizmente este pesadelo irá acometer a todos nós, com maior ou menor grau de intensidade, de forma mais ou menos serena, mas ninguém, ninguém mesmo estará preparado para vive-lo, por mais que se prepare. Talvez a consciência de que vivendo num outro plano, este sim superior nos traga o alento de que necessitamos. Agradeça por ter estado próximo de sua mãe nos momentos finais dela, pois minha maior angustia é viver longe dos meus, eu aqui e eles em SP, sempre imagino, que se acontecer alguma coisa, não conseguirei chegar a tempo para o último abraços.
    Muita força para vc, meu amigo.

  2. Acredito q tenha fim. Tvz ele sempre será um sonho ruim, um triste pesadelo.. mas daqui há algum tempo, vc terá apenas a lembrança deste sonho. Porém, o pesadelo será vencido pelas doces lembranças q sua mãe te deixou: todas as broncas, o jeito q madava vc ir tomar banho, a carinha de zangada qdo vc fazia uma coisa errada, a paciência q te ouvia e q te amava… Vai saber q atravessou este momento, mas vai doer cada vez menos. Há quem diga q se há um deus, este é o tempo. Sim, o tempo ajuda, mas consigo crer q Deus ajude mto mais e é do interesse Dele ajudá-lo, acredite. Fique tranquilo enqto eu fico aqui, distante, mas na sicnera torcida.

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