Num passado nem tão distante recordo-me como o ato de produzir pamonhas

Vai uma pamonha aí?
era um exercício familiar que, momentaneamente, unia a todos em um fim comum. Era em uma época em que quase todos viviam ainda sob o mesmo teto, não haviam tantos irmãos emancipados, a casa era realmente povoada. Um cortava as espigas, outros as debulhavam, outros moíam, outros faziam caixinhas de palha para o cozimento e assim por diante até o final todos serem recompensados com um tacho ou um panela de cascão quentinho para raspar.
Minha mãe sempre foi apaixonada por comidas de milho, assim como eu também, que, mesmo sofrendo alhures depois eu teimo em comer gulosamente. Hoje, mesmo um tanto só, minha mãe continua sua paixão por fazer comidas de milho – pamonha e canjicas excepcionais. Talvez pelo retorno saboroso, mas talvez – e esse talvez bem mais – pela saudade de áureos tempos. Um tempo em que produzir pamonha unia a família, contando estórias de trancoso, recontando velhas histórias da família. Aquelas pamonhas nos tornava uma família.
Pegando emprestado o termo cunhado por Mário Sérgio Cortella, a ausência das proximidades familiares têm produzido um individualismo cada vez mais agressivo. A despamonhalização da sociedade é uma realidade em que, não obstante novas tecnologias para produção de alimentos, todos se sentem menos impelidos a serem uma família, em produzirem algo juntos, em se dar o sabor de compartilhar uma atividade prazerosa na cumplicidade daqueles que nos são tão caros.
E todo mundo vai ficando cada vez mais só.
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Novos tempos, meu estimado amigo Gilberd!
Não só a “despamonhalização”, como também a “msnilização” e a “orkutalização”, dentre outros, têm impelido-nos ao apego às facilidades da tecnologia – muito sedutoras, registre-se -, desfigurando o convício social efetivo.
Verdade, caro Paulo. Recordo-me ainda das boas e animadas rodas de conversa que se formavam na frente da minha casa com vários vizinhos contando estórias e conversas fiadas que eu admirava ouvir, nas noites que faltava luz elétrica. Como hoje dificilmente falta luz, não vejo mais as famílias se reunirem nas calçadas.
Ótima recordação, Gilberd! Quando eu morava em Parelhas, também acontecia o mesmo na rua em que vivia. Era faltar energia e as pessoas sentiam aquela ânsia de pôr as cadeiras na calçada para conversar, e, quando limpo, ver o céu “mais estrelado”. E elas gostavam muito disso. Era muito divertido, o que, paradoxalmente, constratava com o grito (êêê) quando a energia voltava.
Esse seu exemplo demonstra, nitidamente, como a tecnologia mexe com o convívio social de diversas formas, ora afastando os que estão pertos, ora aproximando os que estão longe.
Poucos são os casos em que o equilíbrio aparece como uma resolução perfeita.
Mexe e muito, Paulo. Agora se é bom ou ruim, só o tempo dirá. De toda forma, esse uso da tecnologia tem mudado as relações de sociabilidade para um caráter mais individualista, quase isolacionista. Eu adorava sentar para ouvir e participar, aquilo era agradável, hoje cada um vai assistir sua “novela” ou jornal e ninguém conversa. É possível se constatar as consequências disto quando se pergunta a um criança ou adolescente de hoje quem foi ou é o seu avô, o que fazia, onde morava. Ninguém sabe ao menos onde seus pais moravam!
E assim, essa memória de família vai se perdendo, as ligações afetivas e de humanidade, também, todos condenados a viver um eterno presente, sem referências do passado, sem ter um ponto para se situar no tempo. Ninguém cultiva mais o que tem de melhor, vive-se apenas para a busca do prazer quase instintivo.