A última brasa do inferno

Sou um professor um tanto novo na rede estadual, pois ensino há dois anos na escola pública. Quando cheguei o sistema de gestão democrática já estava instalado. Mesmo sem uma base de comparação mais forte, é impossível não reconhecer os méritos da gestão democrática na educação: se há males na escola, tidas como do sistema como um todo, há a experiência democrática que a tudo faz funcionar – conselho escolar, caixa escolar, direção, funcionários, grêmios, verbas para projetos, verbas para merenda.

Não que vivamos uma fase de ouro em termos de qualidade do sistema escolar ou mesmo que tudo esteja perfeito. Mas a possibilidade de todos participarem, conhecerem as potencialidades e dificuldades do escola de maneira limpa, honesta e transparente é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores feitos da nova democracia. Hoje os recursos que chegam à escola são muito melhores aproveitados. Há autonomia para se decidir que comida será oferecida na merenda, em que equipamento de uso contínuo será aplicado o dinheiro da escola, tudo de maneira transparente e possível.

A outra experiência que não conheci como profissional, a da época dos diretores de cargo de confiança, aqueles em que a politicagem partidária estava mais presente sempre escuto suas crônicas pelas vozes de colegas, de parceiros de profissão que muito sofreram e que viram coisas demais. “Diretores” que não passavam de um pau mandado político, pessoas que se corrompiam, que praticavam abuso de poder, que perseguiam colegas de profissão em nome de uma facção política, que autorizavam retirada de equipamentos emprestados  que nunca mais voltavam, que retiravam comida da merenda para farras eleitoreiras, pessoas que de tudo usurpavam para reverterem em proveito pessoal ou político. Ou, no mínimo, acobertavam fatos por não poderem simplesmente protestar e eram coagidos a ficarem calados sob penas bem maiores que a fantasia de um néscio torturador não seria capaz…

Pior que vejo ainda hoje protagonistas dessas cenas possuírem ainda espaço como se de fato fossem educadores, que recebem elogios e o aplauso quando deveriam estar mortos de vergonha pelos desserviços que prestou, pelos crimes que cometeu. Eu não posso imaginar um professor, um educador qualquer ou mesmo um político – que é ciente de seu poder – ter coragem de roubar a merenda de uma pobre criança de uma escola pública para motivos tão fúteis, que depauperam a escola que deveriam zelar, jogando fora seu patrimônio enquanto professores dedicados lutam apenas com giz e quadro, que, no papel de provedor torna-se o algoz da educação.

A pessoa que rouba o direito de estudar de uma criança, o direito de se alimentar, de receber educação de qualidade pela ousadia de perseguir e atormentar os profissionais da educação, que fazem o país anda para trás, quando se precisa de escolas melhor equipadas não passa de um lixo humano, escória, um rejeito da natureza, algo inominável que a minha consciência repudia e rejeita. Uma pessoa que assim o praticou no passado e ainda hoje ostenta ar de educador não passa de uma víbora, um excremento humano e eu desejo que – se existir o inferno – que esta praga esteja na última brasa do inferno de cabeça para baixo.

Uma resposta

  1. Pois é, Gilberd. Apesar de tardia, essa medida que implementou o sistema democrático na direção escolar solapou um mal que impedia, a seu modo, o avanço, a evolução da gestão, não só dos aspectos pedagógicos, como também administrativos, de um ambiente de ensino.

    A penetração do Estado na educação deve ser aquela apenas estrutural, isto é, no fornecimento de condições para que flua a aprendizagem. Manter na “chefia” de uma escola um representante de um grupo político, indiscutivelmente, afeta a liberdade do professores, cerceando a sua eficiência na transmissão das lições.

    A eleição do corpo diretivo das escolas é uma conquista muito importante, embora ainda seja vasto o caminho a percorrer no sentido de se dar uma educação de qualidade às crianças deste país.

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