Será possível contar a História do amor? Provavelmente não, o amor é um conceito, algo abstrato, mas
História do amor no Brasil quanto as formas de se vivenciar, criar e viver o amor? Essas sim são possíveis de se investigar, de se conhecer. Será que a forma como julgamos que amamos é a mesma que a dos nossos antepassados? De que maneira nossos ancestrais se relacionavam, viviam paixões? No Brasil o processo foi um tanto diverso do que podemos conhecer na Europa. Nossos conceitos de privacidade foram cultivados muito tardiamente.
Um livro apaixonante, no sentido mais literal, com certeza é o História do Amor no Brasil, da historiadora Mary del Priore. Navega pelos esguios caminhos de nossos afetos e amores, versando sobre as práticas afetivas de quem, muitas vezes não teve como contar, mas sua voz aparece sublimada nos documentos oficiais e imponentes, as vezes como perversão, as vezes como pecado e sempre com muita incompreensão.
Amores vadios, amores rasteiros. Fugas, raptos e contratos. Amores proibidos, amores entre iguais, amores desonestos. O que mais você gostaria de conhecer? Eis um trecho para abrir o apetite:
“Revelador de certa mistura religiosa pagã e cristã, o domínio dos sortilégios, a exemplo das orações é tão mais singular, quanto irrigado no Brasil, pelo fluxo de ingredientes culturais africanos e indígenas. Sortilégios e filtros para “fazer querer bem”, seduzir, reter a pessoa amada eram passados pela tradição oral, multiplicados pelo uso cotidiano, convivendo entre os mais diversos grupos sociais. (…) Ensinando a uma de suas clientes um bom modo de viver bem com seu marido, a Nóbrega da Bahia mandou que a mulher furtasse três avelãs, enchesse os buracos abertos com pêlos de todo o corpo, unhas, raspaduras de sola dos pés, acrescesse a isso uma unha do dedo mínimo da própria bruxa e, feita a mistura, engolisse tudo. Ao “lançá-los por baixo”, pusesse tudo no vinho do marido. Para driblar dificuldades, a receita — como vê o leitor — era simples.
Amantes desprezados, enamorados em dificuldades, todos apelam à piedade popular na tentativa de reaver a felicidade amorosa. Na ineficiência da intercessão divina, recorre-se também ao Demônio: “[...] lavar-se no rio com folhas de árvores e repetir — Diabo, juro me fiar de ti, me lavo com estas folhas para fulana me querer bem”, ensinava certo índio processado pelo Tribunal do Santo Ofício.
Outro artifício ensinado pela mesma Nóbrega, envolvia o sêmen do homem amado. Consistia em, consumado o ato sexual, a mulher retirar da própria vagina o sêmen, colocando-o no copo de vinho do parceiro. Nóbrega garantia, beber sêmen “[...] fazia grande bem, sendo do próprio a quem se quer”.”
Espero que tenha ajudado a deixar alguém faminto por ler este livro…
É um livro realmente apaixonante meu amigo! Eu mesmo sempre me delicio quando lanço a vista sobre ele… Especialmente por ser um apaixonado – perdão pelo trocadilho – que sou pela história cultural de uma sociedade…