Ora (direis) ouvir estrelas…

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila.  E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?  Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

(Olavo Bilac)

Sempre valorizei o tempo perdido na contemplação. Atitude quase inútil, se não fosse a utilidade de apaziguar o espírito. Contemplava a vida, contemplava minhas crenças, observava a vida passando, o povo passando na rua, os colegas brincando. Sentia-me apenas um observador, parecia que eu não vivia, não devia participar da vida corrente, não fazia parte desse mundo, como um fantasma a espreita apenas, como alguém que realmente não fosse importante.

Adorava observar as estrelas. Caminhava até a praça da rodoviária e, em um banco qualquer do lado mais escuro da praça, ficava ali observando estrelas, sozinho. Quedava-me muito tempo nessa atitude a imaginar a intensidade e magnitude de cada uma, a pensar como seria viajar para lá, conhecer outros solos, outros mundos, outras civilizações. Curiosamente nunca aprendi a reconhecer uma constelação sequer. Ainda hoje morro de vontade de descobrir onde fica realmente o Cruzeiro do Sul, nunca ninguém me indicou. Afinal, minha contemplação nada tinha de curiosidade científica: meus olhos perdidos no breu do vazio espaço não buscavam só beleza, mas principalmente um ponto de fuga.

Olhos perdidos, olhar vago. Fugir de quê? Fugir da minha realidade, da minha vida tão pequena e tão sem brilho. As estrelas foram companheiras de minha solidão. Aliás, sempre fui muito solitário, não me perguntem porque, talvez por ser muito tímido ou mesmo por parecer anti-social. Eu tenho saudades das estrelas. Não tenho mais tempo para contemplá-las e quando o tenho, minha visão não me permite admirá-las como no passado, já que preciso de lentes nem sempre tão competentes assim.

Eu sou um ser nostálgico. Equilibro meus momentos de alegria e meus momentos de tristeza. Vez por outra me pego triste, vez por outra me deixo estar sem alegria alguma, me pegando à passados que nem sei julgar se foram tão bons ou tão ruins. O fato é que quando pensava apenas estar me tornando um jovem me confronto com meu rosto adulto; quando pensava que a vida ainda começava para mim já via meus cabelos rareando. E nesse ponto crucial em que me repenso e me defino, relembro que as estrelas da minha infância continuam no céu, incógnitas, brilhantes, desafiadoras e cheias de significados, porém anônimas…

A despamonhalização da sociedade

Num passado nem tão distante recordo-me como o ato de produzir pamonhas

Vai uma pamonha aí?

Vai uma pamonha aí?

era um exercício familiar que, momentaneamente, unia a todos em um fim comum. Era em uma época em que quase todos viviam ainda sob o mesmo teto, não haviam tantos irmãos emancipados, a casa era realmente povoada. Um cortava as espigas, outros as debulhavam, outros moíam, outros faziam caixinhas de palha para o cozimento e assim por diante até o final todos serem recompensados com um tacho ou um panela de cascão quentinho para raspar.

Minha mãe sempre foi apaixonada por comidas de milho, assim como eu também, que, mesmo sofrendo alhures depois eu teimo em comer gulosamente. Hoje, mesmo um tanto só, minha mãe continua sua paixão por fazer comidas de milho – pamonha e canjicas excepcionais. Talvez pelo retorno saboroso, mas talvez – e esse talvez bem mais – pela saudade de áureos tempos. Um tempo em que produzir pamonha unia a família, contando estórias de trancoso, recontando velhas histórias da família. Aquelas pamonhas nos tornava uma família.

Pegando emprestado o termo cunhado por Mário Sérgio Cortella, a ausência das proximidades familiares têm produzido um individualismo cada vez mais agressivo. A despamonhalização da sociedade é uma realidade em que, não obstante novas tecnologias para produção de alimentos, todos se sentem menos impelidos a serem uma família, em produzirem algo juntos, em se dar o sabor de compartilhar uma atividade prazerosa na cumplicidade daqueles que nos são tão caros.

E todo mundo vai ficando cada vez mais só.

O dom das palavras

Se há um modo de dizer que a inveja pode ser sadia, coisa que não compreendo bem, eu diria com a mais absoluta sinceridade que aprecio e invejo àqueles que possuem o dom das palavras. Inveja no bom sentido (como sofregamente tento afirmar), pois admiro desmesuradamente aqueles que falam bem e são, por isso, bem ouvidos.

E se você, igualmente a mim, adora os finos textos, não deixe de visitar o blog do José Saramago, premiado escritor português, autor do aclamado Ensaio sobre a cegueira, filme de Fernando Meirelles.

Eis o Link: http://caderno.josesaramago.org

Livro História do Cristianismo

Depois de um largo tempo em que prometi publicar o ebook que estava trabalhando sobre história do cristianismo, finalmente resolvi publicá-lo de maneira mais acessível. Trata-se de “História do Cristianismo – das origens até Justiniano” do autor italiano Ambrogio Donini.

Disponibilizei num arquivo compactado com arquivos .doc (podem ser abertos pelo Word ou pelo Writer do BrOffice). Clique aqui para ir para o link de download.

Uma leitura crítica sobre as origens da cristandade, resumindo 50 anos de pesquisa do seu autor. Recomendo também uma leitura crítica sobre a obra, pois trata-se de um autor marxista e a ótica da pesquisa pode ser diversa das pesquisas atuais.

Não dá mais para usar Windows

Já se vão três anos que abandonei o uso do sistema operacional Windows e hoje utilizo somente Linux em meu PC. Desde então não tive mais qualquer problema com vírus, insegurança, travamentos e outras mazelas típicas da informática. Isso contrasta com os problema que teem passado meus colegas de profissão que usam, obviamente, o Windows.

Nos últimos tempos está praticamente sem sentido usar o Windows. A disseminação do uso do pen-drive também trouxe o incômodo das transferências de viroses ridículas que se utilizam da fragilidade do sistema Windows para se reproduzirem copiosa e biblicamente. Não dá mais para usar o pen-drive sob o risco de queimar os dispositivos, sejam o móvel ou mesmo o disco rígido. Nem parece haver solução, pois os pen-drives que encontro infectados são novamente contaminados pois todos os computadores disponíveis já possuem cópia do vírus, tornando  inútil a utilização de softwares antivírus.

Recentemente, em uma reunião pedagógica, o pen-drive da supervisora ficou inutilizado e as pastas e arquivos que ela trouxe não poderam ser exibidos porque o vírus presentes no PC e dispositivo criaram cópias de arquivos executáveis com os nomes das pastas ou arquivos, ocultando as pastas e arquivos originais e impedindo que o sistema visualizasse estas pastas e arquivos ocultos.

A solução foi trocar o sistema do computador por uma versão Linux, no caso, um Fedora. O computador, que funciona na sala de vídeo, já funciona à uma semana e tem agradado a todos, pois os problemas com vírus nos pen-drives simplesmente desapareceram. Isso só prova que o Windows não dá mais para ser usado, o problema é convencer as pessoas a migrarem. Por mais que tenham prejuízos elas não estão de fato aptas a mudar. Agora a sala de informática do colégio e a sala de vídeo já são Linux, mas a secretaria e a sala de digitação e impressão de trabalhos será bem mais difícil mudar.

Pouco a pouco as coisas mudam. As pessoas mudam. Não tardará a ser necessário trocar o sistema do colégio inteiro por Linux. A era do Windows já acabou.

A última brasa do inferno

Sou um professor um tanto novo na rede estadual, pois ensino há dois anos na escola pública. Quando cheguei o sistema de gestão democrática já estava instalado. Mesmo sem uma base de comparação mais forte, é impossível não reconhecer os méritos da gestão democrática na educação: se há males na escola, tidas como do sistema como um todo, há a experiência democrática que a tudo faz funcionar – conselho escolar, caixa escolar, direção, funcionários, grêmios, verbas para projetos, verbas para merenda.

Não que vivamos uma fase de ouro em termos de qualidade do sistema escolar ou mesmo que tudo esteja perfeito. Mas a possibilidade de todos participarem, conhecerem as potencialidades e dificuldades do escola de maneira limpa, honesta e transparente é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores feitos da nova democracia. Hoje os recursos que chegam à escola são muito melhores aproveitados. Há autonomia para se decidir que comida será oferecida na merenda, em que equipamento de uso contínuo será aplicado o dinheiro da escola, tudo de maneira transparente e possível.

A outra experiência que não conheci como profissional, a da época dos diretores de cargo de confiança, aqueles em que a politicagem partidária estava mais presente sempre escuto suas crônicas pelas vozes de colegas, de parceiros de profissão que muito sofreram e que viram coisas demais. “Diretores” que não passavam de um pau mandado político, pessoas que se corrompiam, que praticavam abuso de poder, que perseguiam colegas de profissão em nome de uma facção política, que autorizavam retirada de equipamentos emprestados  que nunca mais voltavam, que retiravam comida da merenda para farras eleitoreiras, pessoas que de tudo usurpavam para reverterem em proveito pessoal ou político. Ou, no mínimo, acobertavam fatos por não poderem simplesmente protestar e eram coagidos a ficarem calados sob penas bem maiores que a fantasia de um néscio torturador não seria capaz…

Pior que vejo ainda hoje protagonistas dessas cenas possuírem ainda espaço como se de fato fossem educadores, que recebem elogios e o aplauso quando deveriam estar mortos de vergonha pelos desserviços que prestou, pelos crimes que cometeu. Eu não posso imaginar um professor, um educador qualquer ou mesmo um político – que é ciente de seu poder – ter coragem de roubar a merenda de uma pobre criança de uma escola pública para motivos tão fúteis, que depauperam a escola que deveriam zelar, jogando fora seu patrimônio enquanto professores dedicados lutam apenas com giz e quadro, que, no papel de provedor torna-se o algoz da educação.

A pessoa que rouba o direito de estudar de uma criança, o direito de se alimentar, de receber educação de qualidade pela ousadia de perseguir e atormentar os profissionais da educação, que fazem o país anda para trás, quando se precisa de escolas melhor equipadas não passa de um lixo humano, escória, um rejeito da natureza, algo inominável que a minha consciência repudia e rejeita. Uma pessoa que assim o praticou no passado e ainda hoje ostenta ar de educador não passa de uma víbora, um excremento humano e eu desejo que – se existir o inferno – que esta praga esteja na última brasa do inferno de cabeça para baixo.

Vai deixar muita saudade

Faleceu neste dia 25 uma das pessoas que muito fizeram por nossa cidade de Parelhas. Maria da banda foi uma pessoa ímpar, dedicou sua vida à bandinha de música da cidade, a 11 de Fevereiro, vai deixar muita saudade.

Maria de Fátima (Maria da banda) foi minha professora de música, minha professora de clarinete, a ela devo todo o meu saber na música, que, embora não seja muito, pra mim foi uma bênção.

Maria realizava um trabalho importante de educar crianças na arte da música há muitos anos e muitos artistas da banda atual e até artistas que passaram por vários grupos musicais foram formados por ela. A exemplo: Edson, Chocolate, Zé Antonio e outros.

Pessoa muito conhecida na cidade pelo trabalho de professora de música, muitas crianças aprenderam as primeiras notas musicais com ela. Este trabalho jamais será esquecido. Dedicou 35 anos de sua vida à música, ingressou na Banda em 1974, quando o ex-prefeito Plácido Gondim reativou a banda e colocou o novo maestro, Luquinha. Desde então passou por vários maestros, como Tonheca, Sena e Emanuel, sempre como ajudante, arquivista, zeladora.  Maria foi professora de música para crianças e regia uma bandinha de flautas.

Mesmo nunca tenha sido casada, Maria deixa muitos órfãos, crianças que adoravam suas aula, que se encantavam com sua simplicidade, humildade e paciência. Estas lições marcaram para sempre e jamais serão esquecidas.

Fique com Deus, minha querida Mestra.

Maria da Banda

Maria da Banda

A Lição do Fogo

No início do ano na escola Cooperativa de Parelhas, durante a semana pedagógica, Santa e Angelita, respectivamente diretora e orientadora pedagógica, nos trouxeram esse texto, que creio ser anônimo (se alguém conhecer o autor não deixe de me avisar). Ele enfatiza, em meio aos problemas pessoais, o valor do trabalho em coletivo, a atitude saudável de acolher os colegas como parceiros.

Um membro de um determinado grupo ao qual prestava serviços regularmente, sem nenhum aviso, deixou de participar de suas atividades.

Após algumas semanas, o líder daquele grupo decidiu visitá-lo. Era uma noite muito fria. O líder encontrou o homem em casa sozinho, sentado diante da lareira, onde ardia um fogo brilhante e acolhedor.

Adivinhando a razão da visita, o homem deu as boas-vindas ao líder, conduziu-o a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto, esperando.

O líder acomodou-se confortavelmente no local indicado, mas não disse nada. No silêncio sério que se formara, apenas contemplava a dança das chamas em torno das achas de lenha, que ardiam.

Ao cabo de alguns minutos, o líder examinou as brasas que se formaram. Cuidadosamente selecionou uma delas, a mais incandescente de todas, empurrando-a para o lado. Voltou então a sentar-se, permanecendo silencioso e imóvel.

O anfitrião prestava atenção a tudo, fascinado e quieto. Aos poucos a chama da brasa solitária diminuía, até que houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez. Em pouco tempo o que antes era uma festa de calor e luz, agora não passava de um negro, frio e morto pedaço de carvão recoberto de uma espessa camada de fuligem acinzentada.

Nenhuma palavra tinha sido dita desde o protocolar cumprimento inicial entre os dois amigos. O líder, antes de se preparar para sair, manipulou novamente o carvão frio e inútil, colocando-o de volta no meio do fogo. Quase que imediatamente ele tornou a incandescer, alimentado pela luz e calor dos carvões ardentes em torno dele.

Quando o líder alcançou a porta para partir, seu anfitrião disse:

- Obrigado. Por sua visita e pelo belíssimo sermão. Estou voltando ao convívio do grupo. Deus te abençoe!

Pipas e Burcas

Burca - opressão aqui, costume lá. (Foto: Wikimedia Commons)

Burca - opressão aqui, costume lá. (Foto: Wikimedia Commons)

Depois do 11 de setembro, quando os Estados Unidos foram atacados por um grupo de terroristas, o mundo voltou suas atenções para o Afeganistão, primeiro país invadido pelos americanos como represália ao acontecimento. Dizia-se que procuravam o mandante, Ozama Bin Laden, que encontrava-se refugiado por lá, sob a capa do regime Talibã.

Começou-se então um interesse súbito por aquele país esquecido, por aquele regime violento, choveram jornalistas, choviam matérias, principalmente para se ressaltar, se estampar em cores ocidentais a sociedade antiquada, medieval e obsoleta que germinava por lá, a opressão sobre as mulheres metidas em suas burcas sufocantes, num povo pobre sem direito sequer a ouvir música. A situação de um país nunca lembrado agora era a bandeira da mudança daqueles que diziam levar a democracia.

Talvez o interesse mórbido sobre o povo afegão explica o sucesso do Caçador de Pipas, de Khaled Housseini, autor afegão que mora na América. O livro não só foi sucesso de vendagens no mundo todo como foi adaptado ao cinema. Mesmo não sendo unanimidade entre a crítica, o romace comove pelos valores que perpassam toda a trama, pela beleza de detalhes do pensamento muçulmano.

Outro livro que também foi sucesso de vendas, embora mais silencioso, foi O Livreiro de Cabul, de Asne Seierstad, que não é ficção, mas é uma reportagem romanceada que a jornalista escreveu sobre os meses que ficou hospedada na casa de um afegão de Cabul, dono de livrarias e pessoa influente. O livro conta dramas pessoais, aspectos culturais e sociais do povo afegão, ao modo ocidental de narrar, como uma legítima representante de nosso mundo em uma terra estranha.

Ressalta-se de Housseini as pipas, os valores humanos do povo afegão, valores muçulmanos, éticos. Em Seierstad a presença da burca sufoca a leitura, marcando a opressão de uma sociedade machista e opressora, desigual e violenta. Duas imagens do mesmo povo. As duas imagens não parecem se conciliar. Estaria Housseini muito afetado pelo estilo ocidental ou estaria a jornalista norueguesa ressaltando sombras na sua pintura? Deixo aos caros leitores que já leram ou lerão as devidas obras a escolha.

Lucimário preso mais uma vez

lucimarioUm velho conhecido dos parelhenses está mais uma vez nas manchetes: Lucimário Oliveira, o estelionatário do “golpe da mamona” mais uma vez foi parar no xilindró. Desta vez no município de Glória, na Bahia, onde também responde processos por estelionato, além de ser procurado em Pernambuco por aplicar golpes no mercado local.

Lucimário foi preso o ano passado após ser descoberto em Parelhas, RN, passando-se por empresário na produção de biodiesel, chegando a alugar edifícios para uma filial da Bahia EcoBiodiesel, fazendo empréstimos entre agiotas e lesando comerciantes locais. Ele já era procurado em São Paulo, onde passava-se por Procurador da União.

Tenho observado recentemente o crescente interesse pela “empresa” de Lucimário, devido sua prisão recentemente, pelo número de visitas que o blog vem recebendo através de páginas de buscas que ficam registradas aqui. Mesmo pesquisas de outros países já caíram aqui no meu blog à procura de informações sobre Lucimário ou sobre a Bahia Eco Biodiesel, porque, na realidade, ele comercializa (ou tenta) seu produto lá fora.

Mas não se preocupem, logo logo ele estará a solta para continuar suas práticas. Da última vez que ficou preso não demorou muito e já estava vasculhando no meu blog e pedindo “direito de resposta” sobre o que ele afirmava ser calúnia contra ele e sua “empresa”.

O Link da notícia: http://www.ozildoalves.com.br/internas/read/?id=1730

For international search: Infomations about Lucimario Oliveira arrest in April 28, please, follow the link above.